|
|
|
Início »
Opinião
Ruy Serrano
A. Pais Dias
Jorge Nunes
Adriano Coelho
Mário Nunes
....................................
|
| Singularidades da Língua Portuguesa por Ruy Serrano |
|
TENTAÇÕES E OPÇÕES
Mais dois termos sempre presentes na vida de todos nós que têm total interligação. Os momentos cruciais das nossas decisões, durante a nossa vivência, são protagonizados pelas tentações e subsequentes opções que tomamos.
Sempre que uma tentação aflora à nossa mente, devemos parar para reflectir e poder concluir se a opção a tomar será a mais correcta. O que acontece é que quando a tentação é influenciada pelo raciocínio toldado, torna-se difícil clarear ideias para se tomar a melhor opção e porque o tempo é escasso toma-se a opção inadequada de que resultam consequências nefastas tanto para o decisor como para os agentes envolvidos.
Poderia citar mil exemplos das tentações que produzem as opções nocivas pela simples razão de ter testemunhado durante a minha já longa vida, casos que mais parecem irreais do que verdadeiros. Vejamos os seguintes factos: uma paixão perigosa que leva ao compromisso amoroso e até conjugal sem sucesso, culminando com o divórcio; o empregador que ousa montar uma armadilha ao seu empregado, considerado incómodo, para o despedir com justa causa; o político, inebriado pela ascensão rápida e pelo poder que, para usufruir de privilégios e mordomias, usa o cargo para produzir leis a esmo, no pior sentido prático; o professor que toma um aluno de “ponta”, prejudicando-o, sem fundamento, na sua avaliação; o aluno que se esquece que o professor, por ser seu mestre e formador, deve merecer o máximo respeito; o eclesiástico que, ultrapassando as suas competências do sacerdócio, se tenta a invadir a esfera política; o pedófilo que, movido por uma obsessão permanente, toma opções deveras nefastas e monstruosas ao lesar os direitos mais legítimos de inocentes indefesos no germinar das suas vidas; etc...
É desejável que as pessoas se esqueçam a todo o momento das tentações negativas e tomem as opções mais consentâneas com o reconhecimento dos direitos dos outros que são importantes para as suas vidas pela sua interdependência.
|
| .: voltar :. .: topo :. |
| |
CERTA ... SÓ A INCERTEZA por A. Pais Dias |
|
Este mundo é uma bola e quem anda nela é que se amola. Quem não ouviu isto?!
Segundo a Porto Editora, em Portugal não haverá calendários populares nem almanaques populares. Mas sim uma espécie de ...
Todavia, pelo menos dois apresentam-se em público, anualmente, tidos como autênticos Borda e Seringador. E, naquele 1983, se o Borda era um verdadeiro almanaque, com “ repertório útil a toda a gente”, segundo o aprumado velhote da cartola, o Seringador não deixava de ser o “ repertório critico – jocoso e prognóstico “ de seringa bem apontada ao necessário. Alguém não gostará que faça publicidade deles, que muito de útil contêm, inegavelmente. Também não é o meu propósito. Mas tão só pelo facto de me parecer que, partindo um de Lisboa e outro do Porto, aquele seja adepto do Sporting e este do Benfica. Por outro lado os seus “ Juízos do Ano” vão no mesmo sentido. E é assim que o Borda termina o seu juízo: “... gostaria de ver todo o Mundo feliz, toda a gente, pobres e ricos, ou remediados), dando-se as mãos numa confraternização AMIGA e SEM EGOISMOS ! – Fiquem com Deus, nós ficamos com o Menino Jesus”. Por sua vez, o Seringador deseja “... um ano de paz, de trabalho, de concórdia, de moderação, de economia sã , de poupança, que nos permita, como gente honesta que somos, pagarmos aos nossos credores... e construir a Pátria Fraternal que os Portugueses há muito desejam e merecem!”, não sem deixar , na capa, referência conclusiva do 1982:
I
“ Mais um ano que passou
E a vida não se mudou...
Tem sempre o mesmo cariz...
Dá vontade, francamente,
De até ter vergonha a gente
Pôs-se de parte o barril!...
II
Diziam antigamente:
“ Há muito inteligente
Que não é aproveitado!”
Mas, afinal, no Presente,
O que o Povo vê e sente
É tudo incapacitado!...
III
Inda raiou a Esp’rança
P’ra muita loira criança
C’o vinte e cinco de Abril...
Como tudo, passageira
Já curtida a bebedeira.
De nascer neste País...
IV
Porque só com realidades
Dizendo sempre as verdades
Algo de bom se edifica...
Tal qual como dantes:
O Povo vibra uns instantes
Só com o Porto – Benfica!”
E, nesse 11 de Setembro, dos Santos Proto, Jacinto e Teodoro, e feira anual de Santa Cita em Tomar, está-se com o mês em que se previam 70 anos de vida para os homens e 66 para as mulheres ( em 2000 estamos pior: 70 para os homens e 80 para as mulheres – que triste vida!). É neste que se semeiam alhos, cebolas, rabanetes, couve-flor, alfaces, espinafres – e se plantam morangueiros, chicória, etc.. No jardim semeiam-se amores-perfeitos, begónias, cravos, gipsófilas e margaridas.
E assim termino, sem ter a certeza absoluta do descrito no meu oráculo ( que tanto vem no Aquário como nos Peixes), sem possuir terrenos para semear e sem ter a certeza de que S. Conrado de Placência, S. Gabino e Santo Álvaro de bórdova me podem ajudar em todas as necessidades.
Não, a vida não é uma festa permanente e imóvel; é uma evolução constante e rude ( Ramalho Ortigão, escritor português , falecido em 1915). |
| .: voltar :. .: topo :. |
| |
|
Mais a Norte por Jorge Nunes |
Catástrofe ambiental no Brasil
Um estudo do Instituto de Investigação Ambiental da Amazónia (IPAM) e da Universidade de Leeds, na Grã-Bretanha, revela que na região onde se encontra 25% da água potável de todo o mundo está a secar. A Amazónia. A Amazónia enfrenta assim a pior seca dos últimos 102 anos com a frequência de secas a aumentar cada vez mais.
Alguns largos milhares de árvores já morreram por falta de chuva e consequência disso, uma emissão de cerca de 5 mil milhões de toneladas de CO2. A seca de 2010 foi mais intensa e afectou uma área maior do que por exemplo em 2005, o ano até então a deter o recorde. Ano esse em que 1,9 milhões de quilómetros quadrados foram atingidos pela seca, enquanto que em 2010 essa área foi de três milhões de quilómetros quadrados. Para termos uma melhor noção da dimensão desta catástrofe, Portugal tem cerca de noventa e dois mil quilómetros quadrados, apenas.
Situação menos atípica continua a ser a indiferença por parte dos maiores governantes Mundiais e do G20 mais concretamente. Fala-se muito pouco destas questões e acção pós Tratado de Quioto ter findado, nem vê-la.
O Mundo actual com o consumo de combustíveis fósseis a subir, população a aumentar, áreas desertas e agrestes à vida Humana a aumentar também, é diria eu, uma "qualquer coisa relógio". Quando o último TIC for soado, então haverá acção. será tarde? Só nessa altura saberemos.
Cumprimentos
|
| .: voltar :. .: topo :. |
| |
|
Discurso Informativo e Cultural por Adriano Coelho |
Museu do Oriente
O Lusitano e o seu inter-relacionamento com o Indiano, depois o Chinês, mais o Japonês, o Tailandês e também o Javanês da Indonésia e de forma indelével com o Timorense. Tudo isto está no Museu do Oriente de uma forma indescritível, encantatória, subliminar, porque só entendível pelos olhos de cada um, numa visão subjectiva e personalizada. Começo por dizer que foi em boa hora inaugurado em Portugal o imperdível Museu do Oriente, precisamente em Lisboa (cidadela donde saíram essas famosas caravelas e intrépidos navegadores, que vieram a descobrir esse mundo das rotas da canela, da pimenta e da seda e a divulgá-lo por essa Europa fora, no então intitulado “Velho Continente” romanizado e cristianizado). Há que localizarmos no tempo e no espaço o início da existência deste Museu, pólo deslumbrante de apresentação das artes e maneiras de pensar que os Portugueses foram encontrar e conhecer, visualizar e tocar, em suma, descobrir por paragens ignaras aos seus contemporâneos Europeus, que os levou a um Renascimento Cultural nunca vivido a oeste dos Urais e do Danúbio.
A Fundação Oriente, criada em 1988, é uma instituição privada de utilidade pública que tem como objectivo fomentar as ligações históricas e culturais entre Portugal e os países da Ásia, através da realização e do apoio a iniciativas de carácter artístico, cultural, educativo, científico e social, tendo estado verdadeiramente na origem e projecção do Museu do Oriente. Qual país europeu poderia abalançar-se a tal projecto, tão eloquente e fecundo na sua génese? Com efeito, pode dizer-se que não há nenhum na Europa igual na valia e com tamanha bagagem histórica que pudesse realizar tal desiderato. É inegável que foi Portugal nos idos Quinhentos, em pleno séc. XVI, que chegou aos mais distantes portos orientais, que teve ao longo de séculos um papel pioneiro na primeira globalização de que há memória, no intercâmbio e divulgação da variedade e riqueza das diferentes culturas asiáticas, seja ao nível dos usos e costumes, crenças religiosas, regras e códigos morais, práticas artísticas com os seus artesanatos regionais e produção económica bem identificada pelas ideias e valores filosóficos que presidiam à vida desses povos. A presença Lusitana na Ásia (até ao Extremo Oriente Japonês) está bem documentada no espaço museológico.
Rotas do Oriente
A Utopia Oriental dos Portugueses desde o séc. XVI até aos nossos dias encontra-se fabulosamente bem apresentada, caracterizada, em que a partir de uma criteriosa selecção de objectos expostos (mobiliário, têxteis, cerâmica, ourivesaria, pintura, escultura e marfins esculpidos e filigranados) os visitantes podem contemplar, admirar e sentir uma alegria rejubilante e intangível, que torna os momentos ali passados como indescritíveis de prazer e revivificantes da nossa maior auto-estima de Portugueses.
No espaço central do piso 1, o visitante é acolhido por uma exposição dedicada a Macau, e aí se retrata substancialmente a presença dos lusos nas Rotas do Oriente, que desde o início foi baseada no comércio, na missionação e, naturalmente, no encontro de culturas. Toda a construção do Império Português do Oriente, inicialmente centrado em Goa, está neste sector museológico muito bem historiado em todos os seus segmentos de análise. A cultura do Império do Meio Chinês e o lucrativo comércio de artigos de luxo, integrando a Rota da Madrepérola, colecção também constituída por objectos devocionais e de “lembrança”, onde se salientam os crucifixos e as cruzes de pousar, está bem inserida no acervo pertencente à Fundação Oriente e único no mundo. Destacamos também as peças de porcelana brasonada da Companhia das Índias, os biombos chineses e japoneses dos séculos XVII e XVIII, o exotismo dos trajes, marionetas, lanternas, objectos rituais, que deixam o visitante fascinado com a espectacularidade de tais artefactos.
Do muito que se pode dissertar sobre a relação de âmbito religioso dos portugueses com os povos asiáticos, que tinham as suas costas banhadas pelos oceanos Índico e Pacífico, temos as palavras de missionários de antanho que falavam de comunidades idólatras, pois viam nos templos estátuas que lhe pareciam “estranhas”. No entanto, as semelhanças encontradas com a religião ocidental, o Cristianismo, são mais do que se possa pensar: as ideias de deus único, de trindade e da existência de textos sagrados comparáveis ao “Velho Testamento” da Bíblia, que muitos consideram ainda hoje ser contributos oriundos tão-só da religião judaica, já vigoravam na Ásia, sobretudo no Hinduísmo. A exposição sobre as crenças religiosas no Museu, faz-nos reflectir, conhecer mais aprofundadamente os mitos, o poder do sobrenatural, as forças imponderáveis que historicamente condicionam as vidas familiares e sociais das nações desde há milhares de anos. Não nos assustemos com a chegada em força dos chineses a Portugal, que poderá servir como porto (Sines) de intercâmbio comercial, como foi Macau… pois nós que professamos a doutrina da Igreja Católica, saibamos aceitar, por exemplo, que a auréola dos santos teve origem na aura de luz dos Budas e também a ideia de inferno se encontra associada no Oriente a um caldeirão fumegante… Isto e abundantemente mais pode ser vislumbrado neste Museu do Oriente. Os visitantes a uma mostra multicultural como esta sediada em Lisboa vão ter hipótese de compreender as manifestações do divino no ser humano, da contextura tradicional e artística subjacente às religiões asiáticas: o Budismo, o Hinduísmo, o Taoísmo e o Xintoísmo.
O nosso Deus ocidental corresponde, veja-se bem, aos conceitos abstractos do Brama, na Índia, e Tao, na China, seres sobrenaturais adorados nestas paragens e que os portugueses a partir o século XIV foram “descobrir” e divulgá-los por essa Europa proto-Renascentista, que muito aprendeu com os Lusos que navegaram por esses mares de Ceilão à Malásia, de Goa a Singapura. O nosso reputado épico Luís Vaz de Camões não deixou de salientar as sinergias, significações e semelhanças das divindades locais com as ocidentais… Será que a nossa canção nacional – o Fado – tem “raízes” desses tempos de descoberta, de aventura, de amores assolapados e de riquezas sem par? Quanta paixão, tristeza e amargura manifesta a alma fatalista e saudosista deste Povo Lusitano!...
Ciclo Zodiacal
O Novo Ano Chinês inicia-se no dia 3 de Fevereiro e é o Ano do Coelho, e o que é que isto significa? As festividades dos novos anos lunares (decorrem sempre entre a Lua Nova e a Lua Cheia) realizadas no país mais populoso do mundo (mais de um bilião de pessoas), que tiveram começo há 4807 anuidades (no Neolítico europeu) e que neste mês de Fevereiro comemora-se em todos os lares do território chinês, reunindo a família para limpar a casa, decorá-la com motivos auspiciosos, preparando assim os “novos e velhos” para um convidado tão especial como é o Ano Novo. Nós Portugueses, fomos realmente os primeiros europeus que deram conta da existência destes mitos e tradições. Até 27 de Fevereiro (com colaboração da Universidade do Minho e do seu Mestrado em Estudos Interculturais Sino-Portugueses) o Museu vai promover sessões contínuas diárias para o público em geral sobre o Signo do Zodíaco. Reza a lenda que a cada ano corresponde um dos doze animais que atenderam ao chamamento de Buda que, em agradecimento, os transformou nos signos da Astrologia Chinesa: rato, búfalo, tigre, coelho, dragão, cobra, cavalo, cabra, macaco, galo, cão e o porco têm para os crentes orientais muitas das forças sentimentais, espirituais e mitológicas, de pulsões íntimas e desejos de esperança essenciais a todo o ser humano, que perspectivam o futuro. Ainda mais em época de profunda crise socioeconómica e de valores morais de que estamos a padecer, quer queiramos quer não, e que nos podem levar a uma desmotivação tal, que os nossos níveis de produtividade ficarão sem defesas mentais… para o bem-estar que justamente aspiramos.
A esperança, já diz o aforismo popular, deve ser a última coisa a perder-se… nesta noite de escuros e conturbados sonhos de que somos assaltados em cada esquina, e que nos vitupera o dia de amanhã. Se o Estado e os muitos técnicos licenciados da nossa praça, com mestrados em imensos cursos de Ciências Humanas e Naturais, doutores em economia, finanças, gestão de empresas, em magistraturas de Direito que se proclamam de dimensão humanista e escrupulosa prática, engenheiros do ambiente, biologia e de química, da energia petrolífera, eólica e fotovoltaica, sociólogos e políticos encartados, muitos de “meia-tigela ou de tigela-cheia”, como os administradores das PPP, incluindo a CGD, CP, a TAP e o Banco de Portugal, que nunca acertam como estaremos no final de cada mês, no início do ano que vem… O melhor será orientarmo-nos pelos signos da Astrologia, pois se debitarmos as eloquentes asserções e prognósticos dos diferentes “animais” pertencentes ao Ciclo Zodiacal muito mais perto estaremos da felicidade e dos amanhãs prazenteiros. Pelo menos não percamos essa esperança, que nos leva a viver o presente mais positiva e despreocupadamente.
Localização privilegiada
Para terminar, posso afiançar que são umas horas bem passadas neste espaço museológico, que no final do ano em que foi inaugurado recebeu o Prémio do Melhor Museu Português de 2008. Tem tido até hoje centenas de milhares de visitantes (imensos estrangeiros), muitos milhares de espectadores aos saraus de dança, concertos de música, exibição de peças teatrais e sessões de cinema, como também um público escolar (professores e alunos), que sai radiante das visitas guiadas e com a imaginação nos limites máximos da criatividade, por exemplo, com o impacto visual das alegóricas, incríveis e fantásticas máscaras e as impressionantes imagens dos dragões imperiais. As instalações do Museu do Oriente ficam localizadas em Alcântara, junto à Doca de Santo Amaro, na Av. Brasília (tel. 21 358 5200), num antigo edifício portuário, construído para alojar no início dos anos 40 do séc. XX os frigoríficos de pescado do porto de Lisboa, incluindo o bacalhau, da autoria do arq. João Simões, classificado como Património Municipal. A fachada exibe painéis de baixo-relevo do escultor Salvador Barata Feio. O projecto de remodelação para Museu do Oriente foi da autoria do arq. João Carrilho da Graça e tem actualmente sete pisos, com uma esplêndida localização junto ao Tejo, onde se encontram expostas e devidamente legendadas as colecções permanentes e temporárias, e também o auditório, uma loja e cafetaria e um restaurante panorâmico com uma bela vista sobre o rio.
O Museu está aberto das 10 às 18.00 horas, gratuito à sexta das 18 às 22.00 horas, encerrando às segundas-feiras. Visitem, contemplem e não se esqueçam que o futuro cada vez mais no mundo é “amarelo” e vem da Ásia. D. Quixote de Cervantes já dizia: «Se não os consegues vencer junta-te a eles, e segue o vento que passa com a menor das preocupações.» Lutar, lutar é melhor contra “moinhos de vento”, “adamastores” e dragões do que pactuarmos com os “mercados especulativos” mais a sua agiotagem e os mascarados vassalos da nossa praça... Para bom entendedor meia palavra basta… e “Viva Portugal”.
|
| .: voltar :. .: topo :. |
| |
|
Brincar ao comboio do ramal da Lousã por Mário Nunes |
Anteriormente ao advento do caminho-de-ferro e da abertura de estradas, os transportes estruturavam-se em escala avançada na navegação de cabotagem pela orla marítima e pela fluvial. Os transportes terrestres materializados na tracção cavalar, asinina e ou bovina eram, na maioria, tributários dos primeiros. Desta forma, o país compartimentava-se em múltiplos espaços geográficos e estava condicionado, auto-abastecendo-se em muitos domínios, limitando, ainda, a circulação de bens e pessoas.
Este estado negativo prejudicava tudo e todos. Tornava-se necessário resolver a situação, promovendo condições para que a cidade fosse ao campo e que o campo conhecesse a cidade e que Portugal não se confinasse a Lisboa, Porto, Coimbra, Setúbal, Évora ou Braga.
Na Europa lançavam-se nos princípios do século dezanove as linhas férreas, um transporte que passou a romper montanhas, a ultrapassar rios, a passear pelas planícies e a desafiar as pessoas, provocando o “aumento” do espaço europeu e mundial e fomentando o intercâmbio populacional que ajudava ao progresso. O comboio trazia uma autêntica revolução, embora, inicialmente, não fosse bem aceite por muita gente, sobretudo rural, e causasse até receios e medos.
As vantagens eram evidentes. O Governo português entendeu que não podíamos ficar isolados e era indispensável a mudança para não perdermos a Europa. A introdução aconteceu. As obras de instalação do comboio começaram com 31 anos de atraso em relação à Inglaterra, 21 da Bélgica e da Alemanha e 18 da Rússia. O primeiro troço de via férrea entre Lisboa e o Carregado foi inaugurado, com pompa, circunstância e realeza, em 1856.
A surpresa e o impacto causados foram extraordinários. A rapidez do homem excedia o mais imaginário possível. A “louca” velocidade de seis quilómetros e meio/hora, proporcionada pelos carros puxados a cavalo, era destronada para sempre pela inacreditável ligeireza do novo transporte. Nascera uma nova noção de velocidade. O comboio prodigalizava a própria imagem do progresso, conforme indicaram os brilhantes discursos do impulsionador e ministro, Fontes Pereira de Melo.
Depois do Carregado a Lisboa e vice-versa, o comboio atingiu o Porto, por fases. Durante 65 anos a via férrea não deixou de expandir-se e chegou, praticamente, a todo o nosso território, “descobrindo” e beneficiando a maioria das regiões que permaneciam isoladas e entregues ao seu ancestral modo de vida. Lançaram-se, então, e até 1877, 952 quilómetros de via; até 1885, 1529; até 1894, 2353; até, 1902, 2381; até 1907; 2753 e até, 1912, 2974. A internacionalização com a Europa foi uma realidade. Resolveu-se o secular problema das comunicações e dos transportes internos, contribuindo para modificar o estado económico, técnico, social, cultural e educacional das populações. O comboio fixou gentes, criou povoações, desenvolveu outras e trouxe, também, o arejamento das ideias que na época de Antero de Quental, Eça de Queiroz, Feliciano de Castilho e os outros da geração de setenta e oitenta ajudaram a fomentar as mudanças políticas, culturais, filosóficas, pedagógicas, artísticas e outras. As novidades para o pensamento aconteciam em proporção com a velocidade do comboio e permitiam colocar-nos a pensar europeu.
Volvidos cerca de cem anos sobre a primeira inauguração, a CP começou a ter “horror” ao transporte ferroviário que circulava no interior. A partir das décadas de setenta e oitenta do século XX, sem contemplações pelas populações, sem respeito pelo património secular e sem rebuço pelos interesses culturais e económicos passou a encerrar e desmantelar linhas, apeadeiros, estações e a deixar perder uma identidade nacional. Bem bradaram e se manifestaram as entidades camarárias e as gentes. Tudo em vão. E, o fenómeno da desertificação e isolamento continuaram o processo iniciado com a guerra colonial e a (i) emigração.
O ramal da Lousã várias vezes esteve em risco por ausência de investimentos. Quem quiser analisar as tomadas de posição oficiais e individuais nos últimos anos pode compreender essa situação. Porém a CP foi mascarando o problema (recordam-se das bailarinas usadas?). E durante vinte ou mais anos pugnou-se por novas automotoras, exigiu-se a melhoria da via, ambicionou-se chegar à Estação Velha. Resolveram a passagem pela Portagem deslocando o apeadeiro para o fundo do Parque Manuel Braga e projectaram um túnel, designado por “corcunda”, para ultrapassar a inconveniência de circular pela Avenida Navarro. E, constituiu-se a Sociedade do Metro (Mondego) de Superfície. O que veio depois não interessa referir. Todos sabemos, o País sabe, o mundo, também. E, por mor de acções que, aparentemente, pareciam boas, parou, deixou de circular, há um ano, o nosso amigo comboio. Voltará, melhorado? Ou aconteceu mais uma decisão para desertificar e empobrecer ainda mais a nossa região? Os prognósticos não são muito optimistas. Mas, a esperança deve ser sempre a luz que abre mentes desfalecidas. Parabéns ao abraço autárquico dos presidentes dos três concelhos abrangidos e, em especial, ao movimento de cidadãos orientado pelo destemido, dinâmico e incansável Dr. Jaime Ramos.
|
| .: voltar :. .: topo :. |
|
|
|
|