
Memórias de "O Castanheirense"
por Adriano Coelho
«O provincianismo português consiste em estar, em viver, numa civilização sem verdadeiramente fazer parte dela e do seu desenvolvimento», segundo Fernando Pessoa.
O Ensino Técnico
O problema do Ensino Técnico continua por resolver. A sua solução envolve grandes dificuldades e extraordinária delicadeza. É indiscutível que no mundo técnico reside uma importante quota da vitalidade e da harmonia social. Justifica-se pois amplamente todo o carinho e atenção que a estes assuntos se consagrar, tanto mais que a sua problemática é das mais complexas do sector da Educação.
Muito se tem discutido sobre o problema da cultura técnica. Há duas dezenas de anos debatiam-se furiosamente as chamadas Humanidades (cultura clássica) e a educação técnico-profissional. Desta polémica nada resultou porque nela havia mais audácia crítica que audácia construtiva. Ela foi, porém, sintoma de um facto grave: a inadaptação das disciplinas tradicionais às exigências de determinado sector da sociedade contemporânea.
Os estudos clássicos não podiam fornecer ao Comércio e à Indústria os meios indispensáveis à sua prosperidade; e o Comércio e a Indústria operam na vida de hoje como forças poderosas das quais dependem importantes aspectos da vida humana.
Por outro lado, a complexidade dos processos de produção, troca e consumo, exige que se ultrapasse o empirismo dos métodos rudimentares. A sociedade de hoje reclama técnicos conscientes, capazes de actuar neste complexo de maquinismos e relações que caracterizam a indústria e a vida económica do nosso século. Isto equivale a dizer que, cada vez mais, se espera a bem de todas as vidas nacionais uma perfeita educação técnica. Em que moldes organizar esta educação? Eis a tremenda responsabilidade que os nossos legisladores enfrentam neste momento.
A fábrica, dada a sua delicadeza instrumental, a necessidade de acelerar o seu ritmo de produção, a limitação necessária e legal das horas de trabalho, não consente no seu seio a inexperiência, a hesitação, os erros dos aprendizes. O adolescente que deseja enveredar pela vida técnica não encontra meios de aprendizagem no ambiente dessa vida para que se destina. Na longínqua Idade Média, a simplicidade dos processos e a organização económica consentiam o aprendiz no seio da oficina, que era simultaneamente escola. Hoje, duas imperiosas tendências se chocam:
- necessidade de um ensino técnico cada vez mais perfeito;
- afastamento dos aprendizes do verdadeiro ambiente profissional.
É este choque que constitui o núcleo da problemática do Ensino Técnico. As velhas reformas não o resolveram. O adolescente encontrava em qualquer empresa um lugar nulo, sem responsabilidade, do qual auferia uns magros escudos que representavam um auxílio para a solução do seu problema familiar e, após um dia de labuta e trabalho ingrato, ia frequentar as Escolas Técnicas em condições péssimas para qualquer rendimento. Estas escolas praticamente só tinham uma finalidade: criação de um diploma que, para ser obtido, exige a frequência diária da velha sala de aulas, onde o professor prelecciona de cima de um estrado para uma massa de alunos distraída e quase sempre fatigada pelo labor de um dia inteiro. Umas aulas de "oficinas" justificam o adjectivo «técnico» que qualifica este ensino. Numa palavra: a velha escola sobrepôs-se à velha oficina e estabeleceu-se o abismo entre a Escola e a Realidade, o Ensino e a Vida, esse abismo fatal que tão nocivo tem sido em todos os ramos de Instrução, incluindo o Superior (universitário). Deste divórcio resulta esse aborto que todos os professores do Ensino Técnico conhecem, híbrido de mau operário e mau escolar. Mau operário, porque, sem qualquer sombra de proficiência, abraça o primeiro emprego que a sorte lhe depara; mau escolar, porque os seus desejos estão bem longe do que nas escolas lhe ensinam. O seu espírito cansado, como o corpo, da luta pela vida, sem compreender a utilidade do emprego dos pronomes ou das causas da Guerra dos Cem Anos, está alheio a tudo o que lhe dizem.
Por outro lado, se o adulto sabe (às vezes com que consciência!) a profissão que deseja seguir, não é difícil observar que, em vez da orientação profissional de que tanto falam os livros e os educadores da nossa época, no ensino técnico existe, pelo contrário uma verdadeira desorientação profissional.
Outro problema-base deste ensino é o aparente conflito entre a cultura geral e a cultura técnica. Os programas constam essencialmente de dois núcleos de disciplinas: as profissionais e as de cultura geral. Se passarmos em revista as soluções que foram dadas a este problema, veremos que todas elas consideram as disciplinas de cultura geral como merecedoras do carinho especial do corpo docente, porquanto é a elas que compete lutar contra a "deformação da oficina". (…)
Como conciliar toda esta série de contrastes? Não nos cumpre a nós fazer doutrina, nem oportuno seria, quando temos a certeza que todos estes assuntos estão ser apreciados por quem de direito. Com todas estas notas nem sequer tentamos equacionar o problema. Pretendemos apenas fazer pressentir a delicadeza e complexidade do assunto. A sua solução virá certamente da Reforma em que se trabalha, e acalentamos a esperança que motivos de ordem administrativa não prejudicarão o traço enérgico que a solução de tão grande problema exige.
Artigo publicado na 1.ª pág. de "O Castanheirense", na edição de 10 de Junho de 1945, assinado por José Neiva. Veja-se a actualidade, passados 62 anos, desta pertinente "reflexão" do conturbado ensino técnico-profissional.