Memórias de "O Castanheirense"

por Adriano Coelho

«Dentro de mim estão presos e deitados ao chão / Todos os movimentos que compõem o universo, / A fúria minuciosa e dos átomos, / A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, / A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam.» - Poema de Fernando Pessoa

CASTANHEIRENSES, AVANTE!

Nem somente do trabalho vive o homem – ditado já muito antigo –, é uma pura e sincera verdade.

Inicio este artigo, escrevendo esta frase, com vontade de mais uma vez pugnar pela defesa dos interesses de Castanheira de Pera. Ao ler os artigos de "O Castanheirense", da autoria do seu director, sr. Adriano José Sebastião Coelho, não posso deixar de concordar que a sua ideia de ser possível um grande desenvolvimento turístico nesta região, havendo vontade, tem possibilidade de se poder realizar. De facto, organizando-se por intermédio dos serviços municipalizados ou por uma sociedade anónima – talvez com a denominação de Sociedade dos Amigos de Castanheira de Pera – uma organização financeira que compensasse um juro de capital dentro das taxas dos últimos empréstimos governamentais, conseguir-se-ia um tal desenvolvimento do nosso turismo, que por todos seria admirado e elogiado.

Lembrai-vos da obra gigantesca da Casa da Criança Rainha D. Leonor, feita em grande parte por uma das maiores subscrições públicas realizadas em Portugal. A nossa colónia de todo o país e a do Brasil quotizou-se com o maior entusiasmo e alegria, contribuindo para dotar a nossa vila com um dos mais aprazíveis jardins que na província existem, verificando-se assim que é possível a realização do projecto do meu amigo, Adriano Coelho.

Conseguindo-se mil contos, era colossal o desenvolvimento de Castanheira de Pera. Estou convencido que se conseguiam dois, três ou cinco mil contos. Com uma sociedade por acções? Que formidável ideia teve. Um bairro económico, um grande hotel, uma linda casa de cinema-teatro, parque arborizado já temos, como uma linda serra (procurai visitá-la) e boas águas também. O Luso e o Buçaco não as devem ter melhores. Existe também em Castanheira de Pera boa electricidade, sem falhas, e ainda para completar esta região, muitas fábricas de lanifícios. Castanheirenses, avante! Não há tempo a perder. Muito mais poderia dizer sobre a sua idealização de ver uma Castanheira visitada anualmente por milhares de turistas. Mas não posso divulgar num só artigo o programa que li, procurando somente auxiliá-lo com a minha fraca redacção nesta cruzada do desenvolvimento da Ribeira de Pera.

Continue pois a expor o seu programa, que estou convencido virá a ser ouvido, porque o contrário seria que "homem só do trabalho vive dos seus exclusivos interesses em nada mais pensando", o que seria um contra-senso.

A época que atravessamos deve ser de união e trabalho pelo desenvolvimento de todo o país e assim os homens que representam as forças vivas do nosso concelho têm o dever de contribuir com a sua quota parte no desenvolvimento da sua terra natal. Temos que nos lembrar que nem só te trabalho vivemos, mas sim também da alegria de uma distracção e essa nunca poderá ser melhor aplicada que reunindo-nos com entusiasmo pelo desenvolvimento desta linda terra. Discutindo e estudando estes assuntos, os homens em qualquer parte do país são sempre mais admirados e elogiados do que versando, quando se juntam, assuntos sem importância alguma e muitas vezes prejudiciais a uma boa e sincera união. Todos teríamos o rendimento do nosso capital, construindo-se obras que engrandeceriam Castanheira e fariam passar horas do não trabalho com entusiasmo e também pensando numa boa aplicação de capitais. Para prova visitai Gouveia, que construindo um imponente hotel e um bom cineteatro, honrou a vila e os homens que promoveram essas construções, com entusiasmo e alegria, e que estão vendo compensados os seus interesses na boa aplicação do seu capital.

- Não aplicámos as nossas poupanças fora do nosso concelho, como em muitas terras do País se faz – disse-nos um dos directores duma das empresas –, e com isso fomos beneficiados, porque temos tido um juro compensador e engrandecemos a nossa terra com duas construções que ela muito necessitava.

Este homem empreendedor ao falar da nossa terra teve esta afirmação:

- Castanheira de Pera é bonita, mas mais bonita seria se homens tivesse que se arrojassem a empreender construções desta natureza, porque passariam por beneméritos, aplicando sem prejuízo dos seus capitais no desenvolvimento turístico do 3.º Centro Industrial de Lanifícios de Portugal.

Acabando por dizer-nos: - Poucos somos os que vamos às praias, porque em Gouveia temos já muita convivência com turistas que nos aparecem, visitando a nossa terra, porquanto já apresentamos boas condições para os receber.

Amigo Adriano Coelho, continue, teime e verá que sempre se consegue vir a ser escutado… ou lido.

Um Industrial

Artigo publicado na 1.ª pág. de "O Castanheirense", em 20 de Julho de 1944.

 

 

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